Oestudantes reunidos no 5º Encontro do Interior, em Santo Antônio de Pádua, manifestam publicamente neste documento o acumulo do nosso debate e nossas discussões, realizados de forma ampla e coletiva, nos dias 20, 21 e 22 de Abril, acerca do processo de interiorização e expansão da UFF, avaliando seus problemas e propondo ações concretas para transformação dessa realidade.
Seja em Niterói ou nos 10 outros campi no interior do Rio de Janeiro, somos a mesma UFF. Isso não quer dizer que sejamos iguais, nem nas caraceristicas de cada curso, muito menos nas condições fisicas e materiais para o funcionamento de uma universidade de qualidade. Se entre os campi do interior a realidade é diversa, a distância entre Niterói e os demais campi é enorme. A interiorização da UFF evidência as principais contradições de um processo de expansão irresponsável.
Os rumos dessa expansão são decididos num balcão de negócios. Os convênios firmados entre a universidade e prefeituras, as parcerias com fundações e empresas são priorizados em favor dos grupos de apoio político da atual administração, loteando por seus interesses a universidade. A manutenção desse modelo desconsidera a responsabilidade da administração central com esses cursos e deixam refens a comunidade acadêmica dos interesses políticos dos governos locais e muitas vezes desconsideram as necessidades e potenciais regionais. É comum nesses campi o fechamento do vestibular, ausência de professores e estrutura fÍsica.
Quissamã é a principal evidencia desse modelo de expansão. Hoje o campus está ameaçado de extinção. Alguns estudantes que não concluiram o curso relutam em sair da cidade enquanto outros já não conseguem mais tentar se formar sem um mínimo de condições básicas e aguardam o fechamento do curso para concluir sua formação em Niterói. Quissamã não pode morrer!
O REUNI, projeto de expansão e reestruturação das universidades, agravou os problemas dessa interiorização. Em Pádua, o prédio inaugurado possui apenas 16 salas de aula para 6 cursos em funcionamento, conteiners em Rio das Ostras e Campos, aulas em porões em Nova Friburgo, falta de bandejão e moradia em todos campi do interior, universidade funcionando em CIEPs, faltam bibliotecas, salas de aula, professores, técnicos administrativos, transporte intercampi, laboratórios, são problemas frequentes. Essa é realidade também em Itaperuna, Miracema, Macaé e Volta Redonda. Além de todos esses problemas Angra dos Reis enfrenta hoje uma luta pela creche universitária, uma necessidade fundamental de assistência estudantil para as mulheres.
A expansão da universidade não pode ser ao custo da qualidade do ensino, pesquisa e extensão. É claro, acreditamos que a universidade precisa se expandir, que a existência da UFF pode produzir impactos positivos nas cidades em que ela está inserida, com produção de conhecimento voltado para as demandas das comunidades locais e ampliação do acesso ao interior do Estado. Mas para que a UFF possa desempenhar esse papel, não podemos expandir sem verbas. Queremos o interior por inteiro e não pela metade.
Na verdade, defendemos que a disputa dessas verbas deve vir atrelada a um outro projeto de universidade que, construida pela comunidade acadêmica, propõe uma educação para produçao de conhecimento e não só para o mercado de trabalho, que seja construida com o tripé extensão, pesquisa e ensino. Não a logica mercantilizada da universidade!
Para piorar, além da expansao da universidade sem as verbas necessárias, o governo Dilma cortou mais de 5 bilhões da educação em 2 anos. Ao mesmo tempo, gasta-se mais de 47% do orçamento federal no pagamento da dívida pública aos banqueiros e empresários, que mantém seus lucros exorbitantes, sem falarmos dos tantos montantes desviados dos cofres publicos nos esquemas de corrupcao que ditam as práticas dos governos e parlamentos do pais. A luta por uma interiorização de qualidade da UFF também é a luta por 10% do PIB para educação pública.
A falta de assistência estudantil, em especial no interior, é o principal motivo da alta taxa de evasão da universidade. A grande maioria dos estudantes da UFF vem de outras cidades e sabem quanto custa um aluguel, alimentação, transporte, xerox, enfim, se manter na universidade. A simples criação de novas bolsas auxílio para o interior não resolvem esse problema, pois são restritas a pouquissimos estudantes que enquadram numa avaliação socioeconomica extremamente restritiva. Queremos assistência estudantil universal, com bandejão, biblioteca, moradia em todos os campi.
A falta de democracia no interior ainda é um problema. Preocupadas simplesmente com o cumprimento das metas de expansão do REUNI, a universidade se interioriza sem estrutura democrática de funcionamento dos cursos. Mesmo com projeto de extinção dos pólos, a estrutura de feudos no interior da UFF é permanente. Os estudantes tem um peso muito reduzido na escolha dos diretores, isso quando o próprio reitor não é o único quem faz suas indicações, mas em regra, a interferência da administração central nas estruturas administrativas do interior é constante, ferindo a autonomia da universidade.
Precisamos discutir com os professores, servidores e a comunidade local da UFF a reforma estatuinte. O nosso atual estatuto data da ditadura militar e não é superado por um outro porque o reitor Roberto Salles não tem interesse em uma mudança nessa estrutura autoritária da universidade. Tivemos um grande avanço com a realização do plebiscito dos cursos pagos e vitória esmagadora da gratuidade, contra os setores privatistas dessa universidade. Mas o sonho de uma UFF 100% gratuita ainda não é uma realidade.
Precisamos lutar para a sua implementação ainda nesse semestre. Também está em discussão no novo estatuto a regulamentação da estrutura administrativa do interior, após a extinção os polos. Apenas um projeto que contemple as necessidades reais da comunidade acadêmica e da população que se relaciona com a Universidade, e não os interesses desse projeto privatista e autoritário de educação, vai conseguir de fato democratizar a UFF, dar autonomia aos campi para se organizar, acabar com os velhos currais e derrubar os muros que separam a universidade das classes populares.
Virar a UFF ao avesso é uma necessidade. Para isso, o movimento estudantil precisa ser fortalecido, a organização de Centros e Diretórios Acadêmicos nos novos cursos deve ser estimulada. Os estudantes do interior devem ter autonomia para se organizar para lutar pelas suas demandas próprias, organizar assembléias dos campi, fóruns comuns com os professores e servidores locais, conselhos dos CAs e DAs, grupos de trabalho. Acreditamos que não é por favor que a universidade que sonhamos será construida. Somente a nossa luta pode conquistá-la. Queremos também ampliar a participação do interior na gestão do Diretório Central dos Estudantes, repensar permanentemente formas de organização que contemplem a participação constante e demandas do dia-dia de todos os estudantes da UFF.
Temos a necessidade de ter mais espaços de interação, troca de experiências e construção coletiva das lutas que são de todos nós. Queremos construir uma jornada de lutas e o Grito do Interior por assistência estudantil e qualidade no ensino, fortalecendo as lutas locais e integrando as demandas particulares com o todo da interiorização.
Saimos do 5º Encontro do Interior renovados para seguir construindo esse projeto de universidade, enfrentar a precarização do REUNI, acabar de vez com os cursos pagos, fazer valer os compromissos assinados pelo Reitor na ocupação de reitoria de 2011. Se muito vale o já feito, mais vale o que será.
Propomos:
- Construção de uma Jornada de Lutas por assistência estudantil e qualidade no ensino no interior, encerrando no Grito do Interior, um dia de reivindicação na reitoria;
- Defesa do tripé ensino, pesquisa e extensão no interior e em Niterói;
- Lutar por bandejão, creche, moradia e transporte intercampi em todo o interior da UFF;
- Estimular a constução de um dia de paralisação do interior;
- Organizar um dossiê com os problemas da expansao/interiorização da UFF, levantamento dos dados da expansão da universidade;
- Realizar de um seminário de balanço dos 5 anos do Reuni na UFF e apontar para a construção de um seminário nacional sobre o tema; aduff sintff dce comunidade
- Sistematização das propostas apresentadas no painel do interior e produção de um vídeo sobre a política de interiorização e do V Encontro do interior a ser utilizado na jornada de lutas;
- Lutar pela criação de comissões com participação estudantil para organizar a ocupação das vagas da moradia;
- Realização de reunião ordinária do DCE com os Cas e DAs da UFF de niteroi e do interior, para organizar as calouradas unificadas todos os semestres.
- Construção de um calendario de reunioes do GT do interior do DCE em todos os campus do interior, começando com Quissamã.
- Ampliar a participação dos estudantes da UFF em defesa de transporte público e de qualidade. Passe livre já! Fortalecimento das campanhas contra o aumento das passagens;
- Defesa da universidade pública financiada com dinheiro público. Disputar a verba pública que entra na universidade para assistência estudantil. Aliar a luta da expansão com qualidade e a defesa de 10% do PIB para educação pública;
- Reorganizar o GT do Interior e Extensão do DCE, com grupos nas redes sociais, espaço nos meios de comunicação do DCE (site, jornais, cartilhas), e realizar reuniões presenciais nos campi do interior com periodicidade com um calendário a ser pensado no próximo GT do Interior e de Extensao.
- Campos: lutar pela contratação dos 23 professores necessários para funcionamento dos cursos. Construção de projeto de bandejão.
- Rio das Ostras: funcionamento imediado do Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) e da moradia estudantil já construidas. Os estudantes precisam participar do processo de seleção das vagas da moradia. Espaços para o curso de Produção Cultural. Lutar por mais professores efetivos, em especial da Psicologia. Xerox sobre controle dos estudantes. Construção imeiata dos predios A e B e multiuso e do bandejão.
- Pádua: repúdio a utilização de terreno destinado ao bandejão para a construção de um campo de futebol por um vereador de Pádua. Término da obra do novo prédio, que mesmo inacabado foi ocupado. Melhores condições para o transporte intercampi, construção do projeto do bandejão e moradia. As bolsas auxilios nao contempla os estudantes que precisam.
- Nova friburgo: lutar pela construção de laboratórios e pela transferêrencia dos equipamento adquiridos pela Universidade que ainda estão em Niterói. Espaços para mais salas de aula, e compra de materiais instrumentais. Envio da Splinter, já adquirida e até hoje continua retida em Niterói.
- Volta Redonda: Construção do bandejão em Volta Redonda, conforme a carta compromisso assinada pelo Reitor na Ocupação da UFF. Construção de unidade de primeiros socorros, onibus intercampi, pela construção de laboratórios no campus da vila e aterrado.
- Angra: lutar por moradia, creche, bandejão e transporte intercampi.
- Macaé: Lutar pela construção de biblioteca no campus, preenchimento da carencia de professores.
- Miracema: é preciso fortalecer a estrutura do curso, com mais professores, atualização do acervo da biblioteca. Miracema deve deixar de ser extensão de Niteroi.
- Itaperuna: lutar por estruturas básicas em salas de aula, por cadeiras de adulto (pois muitas cadeiras utilizadas são infantis). Expansão da biblioteca, ventiladores.
- Quissamã: não podemos deixar Quissamã morrer. Lutar por condições para que os estudantes possam concluir seu curso com qualidade. Pela reestruturação da UFF Quissamã.
Propostas das oficinas:
- Fortalecimento do GT de Esportes e construção de um campeonato de futebol para toda a UFF, junto dos Cas, DAs e atléticas.
- Cobrar da reitoria manutenção e criação de espaços para pratica esportiva e de lazer.
- Contra o proketo de Lei Geral da Copa proposto pela FIFA.
- Contra a obrigatoriedade da carteirinha da UNE para acesso a eventos esportivos e culturais.
- Incentivar a construção de um coletivo de mulheres da UFF.
- Construção de debates e cursos sobre opressão ao machismo, racismo e homofobia no interior.
- Lutar pelo reconhecimento dos estudantes transexuais serem chamados pelo nome social.
Santo Antônio de Pádua, 22 de Abril de 2012
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